Acho que seria bom começar o
texto explicando que não me considero cinéfila, muito menos uma escritora engajada.
Tudo o que eu tenho é um computador, uma cabeça com memória interna de alguns
Tera e a ideia de chegar em algum lugar.
Eu tenho uma paixão enorme pelos filhos maltratados
e remelentos do Cinema, os filmes de Terror. Eu não vi Atividade Paranormal 5,
e tenho opiniões muito particulares sobre esse tipo de filme, acho que susto de
bater porta não é lá um esforço muito grande para ser digno de nota, mas vi Amityville 1992: It's About Time quando eu tinha 10 anos em VHS, e The
Blob de 1988, Triangle em 2009, e tantos outros filmes um pouco menos ‘ruins’.
Passar tantos anos nesta redoma de medos contribuiu o suficiente na formação da
minha credibilidade na vida, e quem disser que filmes não nos influenciam, bem,
não assiste filmes o suficiente. O fato é que as crias dos anos 90 são seres
mágicos que tiveram como base de vida muita literatura boa (Harry Potter,
Artemis Fowl, Desventuras em Série) que incentivava a criatividade, a
sensibilidade e imaginação; muita música boa (Legião Urbana, Titãs, Paralamas,
que vamos combinar, são clássicos dos 80 que nos seguiram até a década
seguinte) que incentivaram a crítica e o ‘estar tudo bem sentir e expressar as
emoções; e muito cinema bom (ah, uma época de experimentos, efeitos especiais
ganhando força, narrativas novas e trajetos mais ousados!).
Não há nada que criticar sobre isso, claro. Cada
qual que ache que sua década foi melhor que a dos outros, o mundo gira assim e
eu me desenvolvo e evoluo com meu filho, eu me desenvolvo e evoluo com meu pai,
já dizia o - futuro mestre, a cada ano que passa mais perto de se tornar um
filósofo em nossas memórias- Marcelo D2. Exceto, claro, se você foi uma criança
espertinha como eu, que tinha ao seu alcance todo tipo de filme e literatura de
terror possível para a época. Neste caso, ter sua imaginação e criatividade
estimulados diariamente poderia se tornar um problema para o futuro. E foi mais
ou menos o que aconteceu.
O gênero de romance foi fraco nos anos 90. Ou
talvez tivesse uma pegada diferente. De qualquer forma, foi muito
estigmatizado, ironicamente, mais do que o próprio terror. A comédia romântica
então, nem se fala. Sandra Bullock, Julia Roberts, e então Drew Barrymore,
Adam Sandler, Jennifer Aniston, Matthew Mcconaughey urgh. Os anos 2000 foram terríveis para o romance.
Garota encontra garoto, eles se gostam, rola mentiras, rola alguma situação em
que ambos brigam, um deles faz um sacrifício de amor, eles saem correndo na
chuva, ou até o aeroporto just-in-time de impedir o vôo que levaria o amor da
sua vida embora, beijo, piada final, ambos riem, a câmera se distancia até que
o casal fiquei bem pequenininho e créditos. Crianças dos anos 90 cresceram
lendo que a amizade e a coragem pessoal levam ao sucesso e vitória, e chegaram
à adolescência nos anos 2000 aprendendo que os romances tem suas mentiras e
trapaças mas que se no final você correr na chuva e fizer um sacrifício, algo
que mostre seu profundo arrependimento, tudo vai ficar ok. E então foi criada
toda uma geração de relacionamentos meio-mais-ou-menos e superficiais, entre
pessoas que no fundo são extremamente solitárias, pois acreditaram que é assim
que tem que ser. O que poderia dar errado?
Flashforward
vinte anos e estamos em 2010 e tralalá. Já se passou a era do terror psicopata,
Pânico, Jason e Freddy Krueger estão em suas devidas continuações e remakes, os
filmes em primeira pessoa estão em alta (found footage, agora um gênero) e aquela
que vos escreve já está também bem avançada em sua idade. Ok, não tão avançada
assim. Lembrem-se, esta é uma história pessoal, e aqui chegamos em seu ponto
crucial. Ainda não estão dormindo?
Para quem é *levemente* viciado em um gênero,
cada filme que passa se torna mais difícil de surpreender. Com o terror não é
diferente. Existe a linha de narrativa, existe o timing de sustos, medos,
existe a trilha sonora que dá a dica do que está por vir, existem todos os
finais já pré-concebidos e esperados pela sua imaginação. Uma forma de tentar
mudar isso foi deixar o vilão viver. Mocinhos comemoram, susto final:
monstro/alien/psicopata/fantasma está vivo e abocanha/ataca/mata/assusta sua
última vítima. Mais moderno ainda, o mocinho ser o vilão, traição, um erro seu
do começo do filme que vai condenar a todos no final. Ainda assim, estamos
acostumados, quase que treinados a que nada dê certo. As vezes o vilão é forte
demais. É criada uma zona de conforto em que tá tudo bem assistir o filme de
terror, não precisa ter medo, é só um filme.
E então se passam dois anos, e lá estou em em
2014, em meio a conversas com o Leandro, ele vem e me fala sobre um tal de ‘A
culpa é das estrelas’. Na hora, veio um alerta no meu cérebro sobre um livro
tosco de adolescentes sobre romancinho e outros ‘inhos’ pejorativos. Ele me pediu
para dar uma chance, e eu dei. Ainda insegura, gostei muito do livro. Gostei do
conceito de amor, da construção de um indivíduo e sobre como alguns infinitos
são maiores que outros. Ao repassar o feedback, ele me diz que eu deveria
assistir “Her”. EPA. Filme romântico, não! Que é isso, agora, tá pensando que
eu sou...sensível?
E aí caiu a ficha. Eu tinha pavor de filme
romântico. Uma marmanjinha de 23 anos que sabia soletrar Nyarlathotep mas teve
que pesquisar no google Mcconaughey estava com medo de sentimentos. Pois na
minha solidão dessa jornada dos filmes de terror, esqueci que o resto do mundo
também girava. E que nosso amigo Matthew tinha inclusive sido indicado e
vencedor de Oscar em Dallas Buyers Club, enquanto eu ainda estava revoltada com
“Como Perder um Homem em 10 dias”
Se tivesse sido outra pessoa, eu teria ignorado. Veja
bem, o Leandro é filho dos anos 90 como eu. Lemos Harry Potter e ouvimos Legião
Urbana juntos sem saber. Mas de alguma forma – e ainda bem! – fomos nos
moldando iguais mas diferentes. E isso me instigou a buscar o que eu perdi.
Pesquisei alguns filmes românticos que não fossem muito ‘bobinhos’ e lá fui eu
na minha maratona. Primeiro algo mais light, Flipped, de Rob Reiner. O filme
estava bem legal, super fofo, e eu com medo porque tinha certeza que algo ia
dar errado no final. Por quê? Oras, porque sempre dá, a vida é assim. Não deu,
e minha sobrancelha arqueou. Fui para Ruby Sparks, e ela me arrancou muito mais
lágrimas do que eu poderia imaginar. Ainda assim.... deu tudo certo no final?
Short Term 12. Rios foram despejados, e sorrisos também, e os problemas
chegaram, os problemas se foram, e uma ligação mais forte foi criada entre as
personagens principais.
Era Hora do Boss. Chamei minha mãe (literalmente)
e fui assistir Her. É algo muito próximo da perfeição. Foi o que encaixou a
peça final para mim. O romance, assim como o terror, mudou. As crianças que
foram criadas na solidão de dentro de si, hoje expõe ao mundo filmes sobre o
crescimento pessoal e como isso nos ajuda a construir um relacionamento forte.
Estávamos errados, como todas as outras gerações estão. Quem nunca ouviu a frase ‘amores vem e vão, mas a
amizade é para sempre’? Quantos relacionamentos foram desprezados porque não
nos dedicamos o suficiente a eles? Simplesmente porque aprendemos que era
preciso consquistar algo sozinhos, que só assim teríamos valor. E crescemos
vendo filmes de terror, e crescemos chacoteando romance, zombando de
sentimentos, cada vez mais assustados com a ideia de confiar em alguém que não
tem nenhuma obrigação parental de permanecer ao nosso lado.
Hoje eu
assisto o Terror, e assisto o Romance também. E o Drama. Eles não me assustam
mais. Hoje eu acredito sim que alguns infinitos são maiores que outros, faz
completo sentido para mim. Nada se compara ao fantástico mundo do horror, que
ainda vai dar muito pano pra manga nos próximos textos. O que é ótimo, porque
tenho um parceiro que vai me ouvir e rebater e acrescentar muito para a minha
vida.
É, eu não
sou cinéfila, muito menos uma escritora engajada. Tenho sérios problemas de dar
voltas demais. Mas isso pode ser uma coisa boa... Expor um cantinho que talvez
ninguém tenha visto?