segunda-feira, 27 de abril de 2015

Como Short Term 12 fala sobre depressão

Quando você está em crise, a crise é tudo que você é. Mas quando você está fora dela, você começa a perceber como ela é só uma parte de você.

A depressão é uma vadia. Você pode tentar descrevê-la com palavras como “doença”, “trauma” ou até mesmo “frescura” se for um(a) babaca, mas não tem definição melhor do que “uma puta de uma vadia”.

Tá, tá, eu sei, machismo falar assim. Herança cultura de um período de reprimenda do comportamento sexual feminino e nós estamos numa outra época, onde elas estão se libertando das amarras dessa repressão #GoGirls!

Porém, começar o texto com a frase “a depressão suga lentamente sua alma e vai roubar tudo de mais precioso que você tiver cultivado durante sua existência na Terra” não tem o mesmo charme apelativo que “a depressão é uma vadia”. É uma frase que funciona muito melhor aqui, no quarto parágrafo.

Bem, explicações a parte, a depressão tem essa coisa de estar sempre presente na sua vida, mas ao mesmo tempo ser episódica. Aliás, existe uma palavra “episódica”? Se não existe, acabei de inventar. Já está aí a minha contribuição com a humanidade: a invenção da palavra episódica. Nem todo mundo pode teorizar a gravidade ou compor as principais modas do cantaneiro popular sertanejo.

Eu assistir Short Term 12 e muitos filmes já tentaram falar sobre depressão e crises, mas ninguém conseguiu como Short Term 12 consegue. 

Não que seja o melhor a falar sobre, mas é definitivamente a melhor representação visual de uma crise depressiva que eu já vi no cinema – e, sério, eu vejo muito cinema, vi todos os filmes do Batman e também vejo filmes antigos tipo O Máscara. Até já vi uns em preto e branco, mas não gostei muito porque ninguém falava nada kkkkkk.

Se você tem um filho, amigo, pai, namorado(a) ou alguém na sua vida que tem depressão e que às vezes age “estranho” por dias, você precisa assistir esse filme pra entender. Ou não, porque não acho que dê pra você entender.

É difícil você saber o que precisa saber sem ter vivido, não acho que dá pra explicar pra quem nunca passou por isso. É complicado mostrar como que é, sem me abrir muito e dar um tiro no pé. Quando se tem uma crise, você precisa ter fé: em você, em Deus, no que você quiser. Fé de que a crise não é tudo que você é. Quando a crise chega, sua cabeça é como uma ilha. Nada paradisíaca, a idéia aqui é pensar numa armadilha. Você está lá, cercado por um mar violento e quando olha para trás, o que encontra é um lobo sedento. E você sabe quando o lobo vem pra cima e começa a rugir, não adianta fingir que você consegue impedir, não tem pra onde fugir. Ela quer sangue, quer te fazer mal, a crise sempre ataca como um feroz animal.

Mas dessa vez não, vadia, eu sou mais forte que você.

domingo, 5 de abril de 2015

Dr. StrangeLove ou: Como eu parei de me preocupar e amar o Drama/Romance

Acho que seria bom começar o texto explicando que não me considero cinéfila, muito menos uma escritora engajada. Tudo o que eu tenho é um computador, uma cabeça com memória interna de alguns Tera  e a ideia de chegar em algum lugar.
Eu tenho uma paixão enorme pelos filhos maltratados e remelentos do Cinema, os filmes de Terror. Eu não vi Atividade Paranormal 5, e tenho opiniões muito particulares sobre esse tipo de filme, acho que susto de bater porta não é lá um esforço muito grande para ser digno de nota, mas vi Amityville 1992: It's About Time quando eu tinha 10 anos em VHS, e The Blob de 1988, Triangle em 2009, e tantos outros filmes um pouco menos ‘ruins’. Passar tantos anos nesta redoma de medos contribuiu o suficiente na formação da minha credibilidade na vida, e quem disser que filmes não nos influenciam, bem, não assiste filmes o suficiente. O fato é que as crias dos anos 90 são seres mágicos que tiveram como base de vida muita literatura boa (Harry Potter, Artemis Fowl, Desventuras em Série) que incentivava a criatividade, a sensibilidade e imaginação; muita música boa (Legião Urbana, Titãs, Paralamas, que vamos combinar, são clássicos dos 80 que nos seguiram até a década seguinte) que incentivaram a crítica e o ‘estar tudo bem sentir e expressar as emoções; e muito cinema bom (ah, uma época de experimentos, efeitos especiais ganhando força, narrativas novas e trajetos mais ousados!).
Não há nada que criticar sobre isso, claro. Cada qual que ache que sua década foi melhor que a dos outros, o mundo gira assim e eu me desenvolvo e evoluo com meu filho, eu me desenvolvo e evoluo com meu pai, já dizia o - futuro mestre, a cada ano que passa mais perto de se tornar um filósofo em nossas memórias- Marcelo D2. Exceto, claro, se você foi uma criança espertinha como eu, que tinha ao seu alcance todo tipo de filme e literatura de terror possível para a época. Neste caso, ter sua imaginação e criatividade estimulados diariamente poderia se tornar um problema para o futuro. E foi mais ou menos o que aconteceu.

O gênero de romance foi fraco nos anos 90. Ou talvez tivesse uma pegada diferente. De qualquer forma, foi muito estigmatizado, ironicamente, mais do que o próprio terror. A comédia romântica então, nem se fala. Sandra Bullock, Julia Roberts, e então Drew Barrymore, Adam Sandler, Jennifer Aniston, Matthew Mcconaughey urgh. Os anos 2000 foram terríveis para o romance. Garota encontra garoto, eles se gostam, rola mentiras, rola alguma situação em que ambos brigam, um deles faz um sacrifício de amor, eles saem correndo na chuva, ou até o aeroporto just-in-time de impedir o vôo que levaria o amor da sua vida embora, beijo, piada final, ambos riem, a câmera se distancia até que o casal fiquei bem pequenininho e créditos. Crianças dos anos 90 cresceram lendo que a amizade e a coragem pessoal levam ao sucesso e vitória, e chegaram à adolescência nos anos 2000 aprendendo que os romances tem suas mentiras e trapaças mas que se no final você correr na chuva e fizer um sacrifício, algo que mostre seu profundo arrependimento, tudo vai ficar ok. E então foi criada toda uma geração de relacionamentos meio-mais-ou-menos e superficiais, entre pessoas que no fundo são extremamente solitárias, pois acreditaram que é assim que tem que ser. O que poderia dar errado?
Flashforward vinte anos e estamos em 2010 e tralalá. Já se passou a era do terror psicopata, Pânico, Jason e Freddy Krueger estão em suas devidas continuações e remakes, os filmes em primeira pessoa estão em alta (found footage, agora um gênero) e aquela que vos escreve já está também bem avançada em sua idade. Ok, não tão avançada assim. Lembrem-se, esta é uma história pessoal, e aqui chegamos em seu ponto crucial. Ainda não estão dormindo?
Para quem é *levemente* viciado em um gênero, cada filme que passa se torna mais difícil de surpreender. Com o terror não é diferente. Existe a linha de narrativa, existe o timing de sustos, medos, existe a trilha sonora que dá a dica do que está por vir, existem todos os finais já pré-concebidos e esperados pela sua imaginação. Uma forma de tentar mudar isso foi deixar o vilão viver. Mocinhos comemoram, susto final: monstro/alien/psicopata/fantasma está vivo e abocanha/ataca/mata/assusta sua última vítima. Mais moderno ainda, o mocinho ser o vilão, traição, um erro seu do começo do filme que vai condenar a todos no final. Ainda assim, estamos acostumados, quase que treinados a que nada dê certo. As vezes o vilão é forte demais. É criada uma zona de conforto em que tá tudo bem assistir o filme de terror, não precisa ter medo, é só um filme.
E então se passam dois anos, e lá estou em em 2014, em meio a conversas com o Leandro, ele vem e me fala sobre um tal de ‘A culpa é das estrelas’. Na hora, veio um alerta no meu cérebro sobre um livro tosco de adolescentes sobre romancinho e outros ‘inhos’ pejorativos. Ele me pediu para dar uma chance, e eu dei. Ainda insegura, gostei muito do livro. Gostei do conceito de amor, da construção de um indivíduo e sobre como alguns infinitos são maiores que outros. Ao repassar o feedback, ele me diz que eu deveria assistir “Her”. EPA. Filme romântico, não! Que é isso, agora, tá pensando que eu sou...sensível?
E aí caiu a ficha. Eu tinha pavor de filme romântico. Uma marmanjinha de 23 anos que sabia soletrar Nyarlathotep mas teve que pesquisar no google Mcconaughey estava com medo de sentimentos. Pois na minha solidão dessa jornada dos filmes de terror, esqueci que o resto do mundo também girava. E que nosso amigo Matthew tinha inclusive sido indicado e vencedor de Oscar em Dallas Buyers Club, enquanto eu ainda estava revoltada com “Como Perder um Homem em 10 dias”
Se tivesse sido outra pessoa, eu teria ignorado. Veja bem, o Leandro é filho dos anos 90 como eu. Lemos Harry Potter e ouvimos Legião Urbana juntos sem saber. Mas de alguma forma – e ainda bem! – fomos nos moldando iguais mas diferentes. E isso me instigou a buscar o que eu perdi. Pesquisei alguns filmes românticos que não fossem muito ‘bobinhos’ e lá fui eu na minha maratona. Primeiro algo mais light, Flipped, de Rob Reiner. O filme estava bem legal, super fofo, e eu com medo porque tinha certeza que algo ia dar errado no final. Por quê? Oras, porque sempre dá, a vida é assim. Não deu, e minha sobrancelha arqueou. Fui para Ruby Sparks, e ela me arrancou muito mais lágrimas do que eu poderia imaginar. Ainda assim.... deu tudo certo no final? Short Term 12. Rios foram despejados, e sorrisos também, e os problemas chegaram, os problemas se foram, e uma ligação mais forte foi criada entre as personagens principais.
Era Hora do Boss. Chamei minha mãe (literalmente) e fui assistir Her. É algo muito próximo da perfeição. Foi o que encaixou a peça final para mim. O romance, assim como o terror, mudou. As crianças que foram criadas na solidão de dentro de si, hoje expõe ao mundo filmes sobre o crescimento pessoal e como isso nos ajuda a construir um relacionamento forte. Estávamos errados, como todas as outras gerações estão. Quem nunca ouviu a frase ‘amores vem e vão, mas a amizade é para sempre’? Quantos relacionamentos foram desprezados porque não nos dedicamos o suficiente a eles? Simplesmente porque aprendemos que era preciso consquistar algo sozinhos, que só assim teríamos valor. E crescemos vendo filmes de terror, e crescemos chacoteando romance, zombando de sentimentos, cada vez mais assustados com a ideia de confiar em alguém que não tem nenhuma obrigação parental de permanecer ao nosso lado.
Hoje eu assisto o Terror, e assisto o Romance também. E o Drama. Eles não me assustam mais. Hoje eu acredito sim que alguns infinitos são maiores que outros, faz completo sentido para mim. Nada se compara ao fantástico mundo do horror, que ainda vai dar muito pano pra manga nos próximos textos. O que é ótimo, porque tenho um parceiro que vai me ouvir e rebater e acrescentar muito para a minha vida.

É, eu não sou cinéfila, muito menos uma escritora engajada. Tenho sérios problemas de dar voltas demais. Mas isso pode ser uma coisa boa... Expor um cantinho que talvez ninguém tenha visto?