Por todos os meus 23 anos, meus pais falaram do filme “ A Mosca” (The Fly - a remake de 1986, e não o original de 1958) , em uma vibe nostálgica da juventude rebelde em que entravam escondido no cinema para ver um filme claramente forte demais para crianças adolescentes. Como uma boa filha que sou, apesar de ser aficcionada por filmes de terror, este foi postergado até...enfim. Mês passado. E que surpresa eu tive.
A premissa é simples: Cientista maluco desenvolve máquina de teletransporte, porém, em meio as primeiras experiências, uma mosca entra na cabine com ele, reestruturando o seu DNA e gerando uma metamorfose à la Franz Kafka. Creepy, huh?
Pois bem, como se a sinopse já não fosse, no mínimo curiosa, a produção é exemplar. Ganhou seus prêmios por efeitos especiais ( Oscar, Saturn Award), justíssimos, contribuindo aí no meu arrependimento de ter assistido ao filme na hora do jantar. A repulsa é muito bem transmitida ao telespectador ao retratar as mudanças físicas no corpo de um homem (sendo este, Jeff Goldblum, nosso colega de Jurassic Park) necessárias para transformá-lo em uma mosca. É um roteiro ousado quando se pensa que humanos e insetos são filos completamente diferentes. Respiramos, sentimos, comemos de formas diferentes. Como se dá essa mudança? O que mudaria primeiro? É possível estar consciente diante de tal transformação?
Como uma boa ficção, o filme segue toda esta linha de raciocínio. Tirando, obviamente, que isto não seria provável, ele cria um ambiente totalmente possível, que é o que esperamos quando assistimos filmes sobre mutações genéticas. Nós não queremos o ridículo. Não queremos um *POOF* fumacinha, e pronto, Jeff Goldblum ganha um cabeção de mosca. Nós queremos acreditar, nós queremos saber que pode ser real. E quando esse objetivo é alcançado, as coisas ficam assustadoras, e então o que era apenas ficção científica vira puro Terror. Porque uma coisa é você ser um ser pensante, alguém com capacidades cognitivas, e de repente não ser mais. Não há sofrimento, afinal, você não sabe mais o que é sofrimento. Você não sabe quem você foi e o que você sofreu. Você não conhece o amor, a felicidade, as pessoas. Tudo o que você sabe agora é fazer zumzum e comer lixo. A não ser pelo fato de que você é uma mosca de um metro e oitenta, está tudo bem com a sua vida.
[TODOS OS SPOILERS DO UNIVERSO]
Só que não é isso que acontece. O que acontece é que um dia cerdas começam a crescer nas suas costas. E no dia seguinte, você vomita ácido num cara qualquer em um bar. Seu temperamento começa a mudar, e seus dentes cair. Aliás, suas orelhas, nariz e dedos começam a cair (você é uma mosca, lembra? Não precisa mais de nada disso). Como o belo cientista maluco que você é, você guarda seus membros decepados em vidros no seu banheiro, como um ato desesperado de pertencer. Esta é a pior parte. A cada dia mais, você pertence menos; Como ser humano, como ser pensante, lógico e racional, você vai desaparecendo, vendo a sua vida desaparecer, seu legado (cientista maluco megalomaníaco, mas ainda assim, um ser humano como todos nós, certo?). Você tem tempo suficiente para pensar como tudo poderia ter sido diferente, como você poderia não ter entrado na câmara, como uma simples mosca, uma mosquinha... Se ao menos você tivesse escutado sua namorada e parado tudo aquilo. Ah sim, você tem (tinha) uma namorada. Que por sinal, está carregando um filho seu. Talvez um filho larvinha, talvez um filho normal (hey, é preciso um segundo filme, não é mesmo? Estamos falando dos anos 80 aqui!). Em seu último ato de consciência, você implora para que ela matenha o filho, mantenha esse último pedaço de dna seu, esse último pedaço HUMANO seu. E ela nega.
Na minha opinião, isso sim é assustador. Claro, bater portas e fantasmas aparecerem em corredores é bem assustador, só que perde ponto porque nos pega pelas costas, desprevinidos, agindo puramente com nossos instintos. Quando o coração desacelera e vemos que está tudo bem, então está tudo bem. Agora, quando um filme se encerra, mas ele continua na sua cabeça, como uma possibilidade, probabilidade, algo que nos deixa completamente desarmados e nos faz sentir tão...frágeis... Não adianta fechar os olhos, né?